Enfermeiro Especialista em Saúde Mental e Psiquiatria
Images_infermieri1

O Enfermeiro como Psicoterapeuta

Todos precisamos de alguém que cuide de nós em todos os momentos da nossa vida. Somos afinal gente que cuida de gente.( Watson, 1985).

Este papel privilegiado de cuidar do ser humano tem que ser, de uma vez por todas, assumido e desenvolvido, no porno actual de pensar a Enfermagem.

Pensamos que será no campo da intervenção relacional que se desenvolverá a Enfermagem como Ciência do Cuidar (Watson, 1985 ), no limiar do Terceiro Milénio.

Os tempos que se aproximam afiguram-se, como tal, uma encruzilhada importante para o futuro da nossa profissão. A definição de um campo teórico referencial onde possamos fomentar o nosso próprio desenvolvimento nunca assumiu, antes, tamanha ordem de grandeza. Por isso urge desenvolver uma série de ideias-chave para que tal objectivo se concretize.

Urge analisar, no entanto, alguns factores que têm desequilibrado um pouco a nossa estrutura profissional nos últimos tempos.

Não podemos deixar de nos referir, como é evidente, aos Modelos de Enfermagem.

Os Modelos são, antes de mais, estruturas teóricas de orientação para a prática, quadros de referência, e não podem ser entendidos como norma inalterável para a melhoria da prestação de cuidados. Quando um tema tão importante passa a ser, apenas, motivo de interesse para coleccionadores de acções de formação ou como forma obrigatória de legitimação da prática ( como acontece actualmente nalguns Hospitais ) algo não vai bem, e é preciso repensar a estrutura de formação a todos os níveis da Enfermagem.

Outra vertente de análise, é o valor que nós Enfermeiros damos à auto-formação de carácter contínuo. Essa parece encontrar-se ainda a níveis muito baixos, numa profissão que se quer autónoma e cada vez mais científica, com método e objectivos bem definidos.

Igualmente importante é o campo da produção de conhecimento – o investimento na Investigação, como prática inovadora. É inegável que nos últimos anos têm sido muitos os estudos desenvolvidos por Enfermeiros quer a nível de Licenciatura, quer mais recentemente, a nível de Mestrado, mas é possível fazer mais e melhor. A produção de conhecimento novo é motor de desenvolvimento para todas as ciências.

Pensamos serem estes dois campos os mais férteis para que nos desenvolvamos e cresçamos como Ciência – a formação e a investigação.

E a prática ? É evidente que formação e investigação são áreas do conhecimento cujo não-pragmatismo de ideias lança algum descrédito sobre si próprias. Qualquer teoria carece sempre de confirmação prática pela experimentação. A formação desenvolve-se para e na prática, sobretudo a formação profissional contínua, e a Investigação desenvolve-se na prática.

Como podemos então dar valor às nossas ideias? Pensamos existirem alguns campos de potencial desenvolvimento destas premissas.

Sem dúvida que o campo que consideramos preferencial é o do desenvolvimento das capacidades relacionais do Enfermeiro, na perspectiva de que o momento em que acontece a relação é um momento privilegiado e único de mútuo conhecimento entre seres humanos, tendo, o Enfermeiro, aqui uma função terapêutica determinante.

Conseguiremos certamente resultados mais satisfatórios se colocarmos, na relação que estabelecemos com o outro, todo o nosso potencial terapêutico, todas as nossas capacidades e atitudes de ajuda ( Chalifour, 1989 ), facultando ao outro a autogestão dos seus problemas reais ou potenciais de saúde e consequentemente o encontro de soluções dinâmicamente equilibradas para os seus problemas.

Muitos têm sido os contributos trazidos até nós neste campo de potencial desenvolvimento das atitudes terapêuticas dos Enfermeiros. Destacamos os contributos de Watson, Lazure, Chalifour, Leininger, entre muitos outros.

Reforçamos, por isso, a ideia da importância da relação interpessoal, e todo o potencial que ela encerra, na atitude cuidativa do Enfermeiro, e, talvez como o objectivo que perseguimos para nos tornarmos definitivamente uma Ciência. Mas… chegará ?

Não nos podemos esquecer, nos novos projectos de formação em Enfermagem, do valor destas premissas. É preciso fomentar o valor da intervenção relacional na filosofia subjacente ao Ensino Superior de Enfermagem. E para tal não podemos esperar. O futuro da Enfermagem depende em muito duma programação correcta da formação a todos os níveis.

Do futuro da Enfermagem depende igualmente o fomento que dermos à investigação integrada com a prática.

Pensamos que o previlégio deve ser dado ao estudo dos variados aspectos da relação interpessoal em Enfermagem. A investigação baseada nas técnicas mais mecanicistas afigura-se-nos muito frutuosa já que depende em muito do avanço constante da tecnologia médica.

A Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica, e os profissionais que neste campo exercem a sua atitude cuidativa encerram, em si, um potencial único de abertura e amplitude de ideias em complementaridade de conhecimentos e práticas com outras áreas de especialização

O desenvolvimento de atitudes terapêuticas fundamentadas na aprendizagem dos vários aspectos da relação de ajuda é assumido, actualmente, por muitos como a fonte de muito do saber estar, saber ser e saber fazer actual, em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica. Assumimos e defendemos ardentemente estes pressupostos como algo que nos faz pensar positivamente em relação ao futuro.

Fomentar e desenvolver essas capacidades cruza-se, sem dúvida, com o aperfeiçoamento pessoal e aprendizagem contínua do Enfermeiro de Saúde Mental e Psiquiatria.

Essa aprendizagem pode desenvolver-se nos mais variados campos das psicoterapias, como sejam as terapias comportamentais ou a terapia familiar, e menos noutros campos, como o psicodrama, a análise transaccional ou a psicanálise, fundamentalmente por impossibilidade de acesso à formação.

Será esse o caminho a seguir para o Enfermeiro de Saúde Mental e Psiquiatria ? É um bom motivo de reflexão para o futuro imediato deste campo da Enfermagem.

Mas, permitam-nos que façamos uma advertência. A formação que nos pode facultar uma melhor intervenção psicoterapêutica na nossa acção, abre-nos outras portas do conhecimento, potenciando e não ocultando o facto de sermos Enfermeiros de alma e coração. Até porque não é lícito demitirmo-nos de sermos éticamente cuidativos perante o indivíduo nos vários contextos em que se insere.

Se assim não acontecer podemos cair num vazio referencial potencialmente perigoso para a nossa identidade profissional. É um autoinvestimento que não dispensa uma adequada reflexão na nossa acção como Enfermeiros.

Reflitamos conscientemente sobre estas questões.

É urgente decidirmos, nós Enfermeiros, todos os Enfermeiros, se CUIDAR é um princípio ético ou apenas uma obrigação moral.

infermieri-ospedale-258x258

OS ESTILOS DE APRENDIZAGEM E A FORMAÇÃO CONTÍNUA EM SERVIÇO DOS ENFERMEIROS

O estudo que se segue foi efectuado durante o mês de Setembro de 1994 nas Unidades de Medicina Mulheres e Medicina Homens no Hospital Dr. José Maria Grande – Portalegre, no decorrer do Estágio de Administração de Serviços de Enfermagem do 14º Curso de Especialização em Enfermagem de Saúde Mental e porno.

Foram seleccionados para o estudo todos os Enfermeiros das duas Unidades de Cuidados, no total de 24 Enfermeiros.

Foi distribuído à totalidade dos Enfermeiros um pequeno questionário ( Anexo I ). Foram obtidas respostas a 15 dos questionários distribuidos, n.º este que considerámos a nossa amostra.

O questionário aplicado foi adaptado de Botelho ( 1992 ), e pretende caracterizar a população de Enfermeiros em estudo, segundo as suas preferências em relação à aprendizagem pela experiência e em relação aos seus estilos de aprendizagem.

É objectivo principal deste estudo contribuir para um melhor conhecimento dos modos de aprendizagem dos Enfermeiros das duas unidades de modo a permitir suportar uma programação adequada da formação em serviço.

Para a interpretação dos resultados foi utilizada a ficha de classificação e interpretação de resultados referenciada por Botelho (1992), que segundo Kolb ( 1984 ), caracteriza a aprendizagem pela experiência como um processo que decorre em quatro etapas: a experiência concreta, observação reflexiva, conceptualização abstrata e experimentação activa e consequentemente em quatro estilos de aprendizagem : convergente, divergente, assimilativo e acomodativo. (Pág. 56 )

Parece poder concluir-se que a população de Enfermeiros em estudo se orienta para a preferência pelas situações de aprendizagem que privilegiem a observação reflexiva e para o estilo de aprendizagem divergente.

1 – OS ESTILOS DE APRENDIZAGEM E A FORMAÇÃO CONTÍNUA EM SERVIÇO DOS ENFERMEIROS
A Enfermagem é reconhecida por todos como uma profissão em mudança, vivendo actualmente uma encruzilhada de opiniões e pontos de vista que só podem beneficiar a evolução da Profissão no sentido da Ciência.

A Investigação e a Formação ou Educação contínua, no serviço ou fora dele, são duas vertentes que urge desenvolver para que esta encruzilhada seja benéfica para melhor cuidarmos dos que nos rodeiam, somos afinal pessoas que cuidamos de pessoas.

No entanto, possuímos, no conjunto da nossa profissão, pessoas com diferentes graus de formação, com experiências de vida diferentes, com níveis de conhecimentos diferentes. Pensamos, por isso, que dentro deste quadro a Formação tem um papel determinante na evolução profissional e pessoal dos Enfermeiros.

O papel privilegiado, por diversos factores que não importa estar agora a dissecar, neste processo de formação, cabe, sem dúvida, á formação em serviço com carácter de continuidade, devidamente enquadrada de acordo com as necessidades dos profissionais e com as necessidades da própria profissão.

Para formar há que planear. Há, portanto que, de acordo com os princípios pedagógicos avaliar as características dos objectos dessa formação.

Como conhecer essas características ?

Que características importa avaliar ?

Além das características pessoais inerentes a cada um, podemos tentar conhecer outras características desses indivíduos: a sua experiência profissional, os seus objectivos profissionais e pessoais, entre outros.

Para Kolb ( 1984 ) a aprendizagem pela experiência pode ser encarada como uma solução para revitalizar alguns programas de formação ( Pág. 4 ). A aprendizagem pela experiência deve ser encarada como um processo interligado com o desenvolvimento pessoal, com a educação e com o desempenho profissional.

Todos temos diferentes modos de aprendizagem pela experiência e consequentemente, diferentes estilos de aprendizagem.

Segundo Botelho ( 1992 ) referenciando Kolb ( 1984 )

” … a aprendizagem pela experiência é um processo que decorre em quatro etapas, a saber : a experimentação concreta e imediata, considerada a base da observação reflexiva ( observação seguida de reflexão ) de que derivam ideias, conceitos e hipóteses – a conceptualização abstrata – que irão ser testados novamente pela experiência – experimentação activa.

Não nos parece, pois, muito coerente, quando se equacionam as várias vertentes de um Plano de Formação para Enfermagem, descurar a harmonia entre os estilos de aprendizagem desses Enfermeiros e o método que vamos utilizar para lhes proporcionar os conhecimentos necessários a um bom desempenho da profissão.

É nesse sentido que julgamos importante dar alguns passos para melhor conhecermos a forma como os Enfermeiros encaram a formação e que tipo de experiência preferem na sua aprendizagem.

São dados importantes para quem tem a seu cargo a programação da Formação Contínua em Enfermagem.

2 – APRESENTAÇÃO DOS DADOS
O estudo foi efectuado durante o mês de Setembro de 1994 nas Unidades de Medicina Mulheres e Medicina Homens do Hospital Dr. José Maria Grande – Portalegre.

O Questionário ( Anexo I ) contém duas partes. Na 1ª parte foi incluído um texto introdutório ao tema do estudo e revelador das intenções. A 2ª parte é adaptada de Botelho ( 1992 , Pág.53 ), tendo sido mantida a estrutura original do questionário e acrescentadas algumas variáveis como a idade, o sexo e a experiência profissional dos Enfermeiros.

O questionário foi distribuído á totalidade dos Enfermeiros das duas Unidades, excepto Enfermeiros Chefes, num total de 24 questionários. Foram obtidas respostas a 15 questionários, que considerámos a nossa amostra.

Na caracterização da população do estudo encontrámos alguns dados que passamos a descrever.

A média de idades dos indivíduos do estudo é de 29 anos (situando-se entre os 22 e os 39 anos ).

Das respostas obtidas 3 ( 20 % ) correspondem a indivíduos do sexo Masculino e 12 ( 80 % ) a indivíduos do sexo Feminino (Gráfico 1 ).

Em relação á experiência profissional ( em anos ), esta varia entre 1 e 20 anos sendo a média de 6 anos.

Na caracterização do tipo de experiência preferido em situações de aprendizagem, observámos que a preferência vai para situações que privilegiem a observação reflexiva ( em 53,4 % dos casos)

Em relação ao Estilo de Aprendizagem dominante verificámos que 46,6 % ( 7 indivíduos ) dos indivíduos tem um estilo de aprendizagem Divergente e 33,4% ( 5 indivíduos ) um estilo de aprendizagem Assimilativo.

3 – ANÁLISE DOS DADOS OBTIDOS
Na amostra estudada verificámos que a percentagem mais elevada é de indivíduos do sexo Feminino ( 80 % ).

A média de idades é relativamente baixa ( 29 anos ), sendo a experiência profissional, em média, de 6 anos. No entanto, neste ponto encontramos um valor mínimo de 1 ano e um valor máximo de 20 anos, o que nos confirma uma certa heterogeneidade na formação em Enfermagem, diferentes experiências de vida e consequentemente diferentes formas de encarar a profissão e a formação.

Em relação á avaliação do modo de aprendizagem dos Enfermeiros do estudo, verificámos um total de 8 casos ( 53,4 % ) com escore mais elevado em Observação reflexiva que segundo Botelho ( 1992 ) caracteriza um processo de aprendizagem orientado para a ” experimentação conduzida de modo imparcial e reflectido ” ( Pág. 56 ). São indivíduos que, no geral, gostam de se basear na observação cuidadosa para “formular um julgamento”. ( Pág.56 ). Preferem situações de aprendizagem que privilegiem o método expositivo, visto que preferem o papel de observadores ao de intervenientes directos.

Em 4 casos foram observados escores elevados em Experiência concreta. estes indivíduos preferem a aprendizagem na relação interpessoal, isto é, enquanto se relaciona com as outras pessoas. É a aprendizagem da experiência pela experiência. Não privilegiam as abordagens teóricas, mas sim as situações práticas como forma de aprendizagem. Para Botelho ( 1992 ) são indivíduos que ” aprendem melhor a partir de exemplos particulares em que se podem, de algum modo ver envolvidos “. ( Pág. 56 ).

No que diz respeito aos Estilos de Aprendizagem, verificámos que em 7 casos ( 46,6 % ), o Estilo de Aprendizagem é o Divergente. Este estilo caracteriza-se fundamentalmente, segundo Botelho ( 1992 ) por integrar indivíduos com capacidades de aprendizagem no âmbito da observação reflexiva e da experiência concreta. São indivíduos cuja “força reside na capacidade de imaginação e conhecimento de significados e valores. ” ( Pág.57 ). São, igualmente indivíduos com facilidade na compreensão de situações concretas. Privilegiam igualmente as relações interpessoais.

Em 5 casos ( 33,4 % ), o Estilo de Aprendizagem observado era o Estilo Assimilativo.

Para os indivíduos com este Estilo de Aprendizagem, os conceitos teóricos sobrepõem-se às relações interpessoais. Para estes indivíduos, um determinado conceito teórico carece de logicidade na aplicação prática. Se assim não acontecer essa teoria terá tendência a ver esquecida ou reexaminada. São indivíduos que se situam, em termos de modos de aprendizagem, entre os domínios da Conceptualização Abstrata e da Observação Reflexiva.

4 – CONSIDERAÇÕES FINAIS / ALGUMAS SUGESTÕES
No quadro actual da profissão de Enfermagem há desafios que é importante abraçar e levar por diante. São as perspectivas de um Estatuto Profissional e da formação de uma Ordem dos Enfermeiros, bem como o desenvolvimento da nova forma de avaliação de desempenho. São assuntos que devem ser discutidos entre nós Enfermeiros, para melhor compreendermos o nosso futuro.

São perspectivas que implicam a participação de todos, sem excepção.

Perante esta realidade é importante que cada um tenha um Projecto de desenvolvimento pessoal e profissional. O Projecto elabora-se olhando para o presente e perspectivando o futuro.

É inevitável que neste projecto pessoal e profissional se inclua a vertente da Formação Contínua em Enfermagem. Esta deve ser devidamente programada de acordo com as características dos sujeitos e da profissão, contribuindo sempre para a valorização pessoal e profissional dos intervenientes.

A tarefa de quem tem a cargo a programação da Formação Contínua em Enfermagem, nas unidades de cuidados não é fácil.

É preciso ” investigar ” para planear de acordo com as necessidades e com a realidade.

No estudo efectuado nas duas Unidades de Cuidados chegámos a algumas conclusões que consideramos algo interessantes.

Em relação ao modo de aprendizagem pela experiência, dos Enfermeiros da amostra verificámos que a maioria destes privilegia a Observação Reflexiva. Se quisermos atender a estas características na selecção de estratégias para uma situação de aprendizagem devemos observar que as preferências vão para o método expositivo, em detrimento de outros métodos pedagógicos activos. Métodos que impliquem a intervenção directa dos sujeitos terão menos sucesso ? Tudo leva a querer que assim seja.

No que se refere aos Estilos de Aprendizagem dominantes – o Estilo Divergente e o Estilo Assimilativo – eles estão em perfeita consonância com o modo de aprendizagem pela experiência dominante.

No conjunto destes dois Estilos de Aprendizagem encontramos indivíduos de características relativamente opostas, principalmente na preferência pelas relações interpessoais como forma e oportunidade de aprendizagem.

Permitindo-nos fazer algumas sugestões quanto ás situações de Formação que se venham a desenvolver nas duas Unidades de Cuidados propomos, em termos gerais, a articulação entre a estratégia escolhida para a transmissão de conhecimentos – o método expositivo – conjugando-o com outras oportunidades de Formação como Reuniões de Equipa, supervisão mútua de Planos de cuidados de enfermagem, Discussões de Planos de cuidados, entre outras opções consideradas válidas.